NÃO SE TRATA DE XENOFOBIA CONTRA AFRICANOS
Uma leitura estrutural a partir da experiência vivida
1. TESTEMUNHO E LEGITIMIDADE
Vivi na África do Sul entre Outubro de 1994 e 2015. Cheguei como refugiado e fui progressivamente integrado, tendo alcançado o estatuto de residente permanente, sempre tratado com dignidade em todos os níveis da sociedade.
A minha experiência não se limitou à periferia social. Frequentei espaços centrais da cultura, da economia e da elite sul-africana. Trabalhei com a Gallo Music, onde coexistiam nomes como Luck Dube, Brenda Fassie e Hugh Masekela. Convivi com figuras de referência como Miriam Makeba, Yvonne Chaka-Chaka e Moeletsi Mbeki.
Lancei o meu álbum Kazeze em Sandton, num dos espaços mais prestigiados da cena cultural. Tive um programa de rádio em Joanesburgo — Angola no Coração. Fui empresário, proprietário de um café em Rosettenville, e vivi em zonas nobres sem nunca ter vivido experiências de discriminação racial ou social.
Circulava livremente, inclusive durante a noite, em total segurança. Durante anos, a África do Sul foi, para mim, um espaço de integração real.
1. O MOMENTO DE RUTURA
A mudança não surgiu das massas.
Surgiu no topo.
No ano 2000, após construir a minha residência em Sunninghill (Sandton), durante um encontro social com figuras influentes — incluindo um jornalista da Kaya FM — ouvi a seguinte afirmação:
“Como é que eu, sul-africano, com 50 anos, não consigo construir uma casa destas na minha terra, e Tony Nguxi, que chegou em 1994, já tem?”
Este momento marcou o início de uma perceção clara:
Não se tratava de rejeição cultural
Tratava-se de ressentimento económico estruturado
Nos dias seguintes, os sinais multiplicaram-se. O desconforto instalava-se nos círculos mais elevados — negócios, eventos, relações institucionais — antes de descer às massas.
1. TESE CENTRAL
A chamada “xenofobia” na África do Sul não é um fenómeno espontâneo do povo.
É:
• Um efeito secundário de falhas estruturais económicas e políticas
• Um movimento induzido a partir das elites
• Uma reação à desigualdade não resolvida pós-apartheid
1. INTERPRETAÇÃO ESTRUTURAL
A economia sul-africana manteve, após 1994, uma base estrutural profundamente desigual, herdada do apartheid.
O poder político mudou.
Mas o poder económico manteve-se concentrado.
A consequência:
• Frustração acumulada nas populações locais
• Falha na redistribuição económica
• Competição directa com migrantes africanos em sectores informais e semi-formais
Essa tensão foi instrumentalizada e amplificada.
Não como política declarada, mas como resultado de:
• Reformas económicas incompletas
• Integração global subordinada
• Dependência de centros financeiros externos
1. RESPONSABILIDADE POLÍTICA
O African National Congress (ANC), enquanto força libertadora, não conseguiu manter a ligação orgânica com o povo.
A transição política privilegiou estabilidade económica internacional em detrimento de:
• Justiça económica interna
• Reorganização comunitária
• Integração regional africana
Decisões históricas, incluindo o silenciamento de correntes mais radicais dentro do próprio movimento — associadas a figuras como Winnie Mandela e Oliver Tambo — contribuíram para este desvio.
1. DIMENSÃO GEOPOLÍTICA
A estrutura económica sul-africana permaneceu alinhada com centros de poder global:
Londres
Washington
Austrália
Este alinhamento condicionou a autonomia real das políticas internas.
A promessa de libertação política não foi acompanhada por uma libertação económica equivalente.
1. CONCLUSÃO E POSICIONAMENTO
O que hoje se manifesta como “xenofobia” deve ser compreendido como:
• Um sintoma
• Não a causa
O povo sul-africano não é, na sua essência, xenófobo.
É:
• Vítima de uma transição incompleta
• Exposto a uma competição desigual
• Inserido numa estrutura que não foi redesenhada
A violência contra estrangeiros africanos não nasce da cultura.
Nasce da fratura entre promessa política e realidade económica.